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Biblioteca de Medicina do Terreiro de Jesus resgata acervo de teses e livros raros

02.05.2017

 

Nos mesmos porões da Faculdade de Medicina do Terreiro de Jesus que um dia abrigaram necropsias e experimentos com cadáveres em bancadas de mármore carrara, vêm sendo realizadas, diariamente, dezenas de minuciosas operações. Mas, agora, em vez de médicos bigodudos, é um time de mulheres que está no comando. Em vez de tesouras e bisturis, são pincéis, lupas e embalagens de papel as ferramentas de trabalho. E nas bancadas, em vez de corpos sem vida, estão livros, outrora esquecidos, que vêm sendo ressuscitados.livros_4

 

Trata-se da recuperação do acervo de aproximadamente 70 mil volumes da Bibliotheca Gonçalo Moniz, da histórica Faculdade de Medicina, que contém teses, periódicos e livros bastante antigos – a maioria do século 19 e primeira metade do 20, mas também preciosidades dos séculos 16, 17 e 18. No espaço de três pavimentos por onde um dia circularam os taciturnos “homens de sciencia” da primeira escola de medicina do país (fundada em 1808 pelo príncipe português D. João, e elevada oficialmente a faculdade em 1832), hoje trabalha uma equipe de 27 pessoas – 10 profissionais, 13 estudantes-bolsistas e 4 voluntários – quase todas mulheres, da área de biblioteconomia. A cargo delas está o cirúrgico e aparentemente interminável processo de limpeza, reorganização, reacondicionamento e catalogação de livros que por pouco não se perderam por completo.

 

Mas a Bibliotheca ficaria novamente entre a vida e a morte entre os anos 1970 e o início dos 2000, quando o prédio do Terreiro de Jesus – cuja importância histórica e arquitetônica viriam a ser reconhecidas em 2015, com o tombamento pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Histórico Nacional (IPHAN) – esteve completamente abandonado. Só em 2003 o espaço começou a ser restaurado, e os livros, recuperados por uma equipe de bibliotecárias liderada pelas servidoras técnico-administrativas Maria das Graças Ribeiro, Leonor Halla e Sonia de Abreu (a primeira hoje na Universidade Federal do Sul da Bahia, e as outras duas já aposentadas). Elas encontraram um acervo abandonado, entregue a gatos, ratos, pombos, baratas e traças, e exposto à umidade e intempéries de todo tipo.Fundada em 1832, no tempo em que biblioteca se escrevia com “h”, a Gonçalo Moniz foi reaberta ao público em 2013, após ter estado completamente abandonada desde meados da década de 1970, quando a Faculdade de Medicina transferiu suas atividades para o campus do Canela. A biblioteca funciona no mesmo local onde um dia funcionou o Instituto Médico Legal Nina Rodrigues (cujo nome homenageia o pioneiro da antropologia baiana, um dos principais nomes do chamado “racismo científico” brasileiro). Originalmente inaugurada a partir de doações de professores e alunos, e robustecida em 1841 com o acervo do médico Feliciano Ribeiro Diniz, primeiro bibliotecário da escola, a biblioteca teve seu primeiro acervo completamente destruído em um incêndio no ano de 1905. O acervo atual começou a ser recomposto naquele mesmo ano e, em 1909, a biblioteca foi reinaugurada com 12 mil volumes, todos doados ou adquiridos após o incêndio. Em 1944, ganhou o nome do professor Gonçalo Moniz, um dos principais entusiastas da reconstituição do acervo.

 

Do abandono à recuperação

 

Entre 2003 e 2009, a primeira etapa da recuperação da biblioteca trouxe de volta à luz a coleção de teses defendidas na escola, “que é a menina dos olhos da biblioteca, porque contém a história da Faculdade de Medicina em si”, na avaliação da bibliotecária Ana Lucia Albano, que em 2015 assumiu a coordenação da Gonçalo Moniz. No bojo do projeto de recuperação, intitulado “Bibliotheca–Memorial da Saúde Brasileira” (parceria da UFBA com o Ministério da Educação, que obteve verbas até o ano de 2010), teses de admissão de professores e de alunos concluintes do curso e mais um conjunto de obras raras foi identificado e também disponibilizado à consulta pública. A isso somam-se hoje a coleção de referência (catálogos, dicionários, manuais e obras de consulta) e o acervo doado pela família do médico e professor Estácio de Lima (1897-1984), também acessíveis ao público.

 

Mas o material já recuperado representa apenas algo em torno de 10% de todos os volumes da biblioteca: pelos três pisos da chamada “torre de livros”, distribui-se ainda a maior parte do acervo, que só aos poucos vai sendo tocada. “Na transferência para o Canela, nos anos 1970, a parte considerada atual do acervo foi levada, e o restante, a parte antiga, foi deixada para trás”, explica Ana Lúcia. Embora as teses e obras raras já reacondicionadas sejam os itens considerados mais nobres do acervo, o restante do material – algo em torno de 60 mil volumes, estima Ana Lúcia – não pode ser visto como desimportante. “É difícil saber precisamente quantos livros temos e quais são eles. Isso depende de um processo diário de limpeza, leitura e pesquisa que, sinceramente, não sei quando irá terminar”, afirma.

 

A equipe tem trabalhado em diversas frentes. As etapas mais básicas consistem em reposicionar livros que se encontravam amontoados nas estantes e limpá-los, retirando capas apodrecidas e pedaços completamente deteriorados. Em seguida, é feita uma primeira limpeza, exemplar por exemplar. Só então as bibliotecárias mais experientes da equipe examinam os livros, na tentativa de identificá-los e definir quais deles terão prioridade na higienização mais minuciosa, página a página. Triados e limpos, os livros recebem uma nova sobrecapa (uma caixinha feita de cartolina), e são, por fim, catalogados no sistema eletrônico de bibliotecas da UFBA.

 

Verdadeiras relíquias

 

Se não chega a ser uma biblioteca de Babel (a famosa biblioteca que contém todos os livros, escritos e por escrever, do mundo, imaginada pelo escritor argentino Jorge Luis Borges), a Bibliotheca Gonçalo Moniz tem surpreendido Ana Lúcia, quase diariamente, com verdadeiras relíquias. Ela achou, recentemente, o mais antigo exemplar de tese de concurso já encontrado na Faculdade: “Acido Oxalico e Principios Immediatos dos Vegetaes”, defendida por Eduardo Ferreira França, que no dia 13 de novembro de 1838 assumiu a cadeira de “Chimica Medica e Principios elementares de Mineralogia”. Também encontrou perdida uma edição de setembro de 1896 da “Revista Médico-Legal”, da outrora prestigiosa Sociedade de Medicina Legal da Bahia.

 

Outra obra rara do acervo são os 15 tomos (ou, mais precisamente, as 10.367 páginas) da preciosa coleção “Flora Brasiliensis”, produzida entre 1840 e 1906 pelos editores Karl Friedrich Philipp von Martius, August Wilhelm Eichler e Ignatz Urban, com a participação de 65 especialistas de vários países. Considerada uma das maiores obras de botânica de todos os tempos, a coleção primorosamente ilustrada é um dos resultados da viagem épica liderada pelos alemães Johann Baptist von Spix e Karl Friedrich Philipp von Martius no início do século 19, que percorreram cerca de 10.000 km ao longo de três anos, passando por quase todos os principais tipos de vegetação do Brasil.

 

Há ainda um exemplar recém-encontrado de uma “História Natural do Oceano”, de 1772, do qual, pelo estado em que se encontra, ainda não se sabem muito mais detalhes; os seis volumes da coleção “História do Brazil”, do historiador inglês Robert Southey, produzidos a partir de documentação da Torre do Tombo, em Portugal, cuja primeira edição brasileira foi lançada em 1862, em encadernação imperial, pela Livraria Garnier; e as primorosas (e, por vezes, bizarras) ilustrações de técnicas e próteses médicas do ” Dictionnaire de Chirurgie” (Dicionário de Cirurgia), edição francesa publicada no ano de 1798.

 

Entre os periódicos ainda não examinados, há edições antigas de famosas revistas científicas internacionais, como a norte-americana “Nature”. Há também uma coleção de teses do século 19 e início do 20 defendidas na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, com a qual a escola baiana mantinha estreito intercâmbio, além de teses defendidas em Portugal, Alemanha, Argentina e França. 

 

Lacunas de memória

 

A Bibliotheca Gonçalo Moniz encerra “uma história de resistência e luta”, define a médica e memorialista da Faculdade, Cristina Maria Mascarenhas Fortuna. Servidora do quatro técnico-administrativo da UFBA há 36 anos, a “professora Cristina” – como é tratada por colegas e alunos da escola – é atualmente, por conta de suas pesquisas, quem melhor conhece a história da biblioteca.

 

Após trabalhar por mais de 20 anos como geneticista na equipe da ex-reitora Eliane Azevedo, no Hospital Universitário Edgard Santos (Hupes), ela aceitou o desafio de ler todos os memoriais anuais de acontecimentos notáveis e evolução da pesquisa e ensino de medicina escritos por professores a partir de 1854, a fim de subsidiar a professora Eliane na produção do livro “Bicentenário da Faculdade de Medicina da Bahia Terreiro de Jesus: memória histórica 1996-2007”, publicado em 2008.

 

O acúmulo compulsório de conhecimento lhe traria uma nova encomenda, desta vez pela direção da Faculdade: preencher a “memória” da escola em dois hiatos – os intervalos de 1916 a 1923 e de 1925 a 1941 – quando a escrita anual do memorial, normalmente feita por um docente da escola, deixou de ser obrigatória.

 

Missão dada, missão cumprida: todo o material já está pronto, afirma Cristina, apontando a pilha de papéis sobre a mesa – que, de tão alta, chega a esconder seu rosto. Após vasculhar gazetas médicas e diários oficiais, legislação antiga e jornais do período, além de consultar pesquisas de historiadores da medicina, como o professor Antonio Carlos Nogueira Brito, ela produziu centenas de páginas relatando acontecimentos marcantes.

 

Entre eles estão a invasão do prédio da Faculdade por tropas militares em 1932, ordenada pelo interventor varguista Juracy Magalhães, que resultou nas prisões de 7 professores e mais de 500 alunos; e a realização, em 1937, do segundo Congresso Afro-Brasileiro, evento em que se debateu a influência africana na sociedade brasileira, organizado pelos renomados antropólogos Edson Carneiro e Arthur Ramos. Parte desse material já pode ser lido, porém apenas in loco – isso porque a professora Cristina escreveu tudo à moda dos memorialistas do passado: à mão. E, como era de se imaginar, a história de todos esses anos leva um certo tempo para ser passada do papel para o computador.

 

Fonte: EdgarDigital



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  • Última Atualização Em: 25/05/2017, às 09:38:24.